Introdução
A neuropsicologia adora números, normas e baterias. Mas nem sempre gosta de olhar para o espelho.
Nesta aula do KnowNeuropsychology (19/04/2021), Cristina Román e Stephanie Torres fazem um "raio-X" das disparidades na área — não só em saúde, mas também em avaliação, atendimento, formação e pesquisa. A tese central é simples e desconfortável: muita coisa que a gente chama de "padrão" foi construída em um contexto histórico que excluiu (e às vezes feriu) muita gente. E, se a população é cada vez mais diversa, a área ou se adapta… ou fica irrelevante.
Ao longo do texto, vale se perguntar: o que, no seu dia a dia, você chama de "neutro" só porque sempre foi assim?
Começando pelo que quase nunca entra no slide de "História"
Quando a gente lembra da história da psicologia/neuropsicologia, costuma aparecer o pacote clássico: "fundadores", inteligência, testes, normatização, lateralização.
O que raramente entra no pacote? As raízes em racismo sistêmico, colorismo, capacitismo, sexismo e homofobia, que ajudaram a moldar o que virou "referência" no campo. A aula traz um exemplo forte: trechos históricos ligados a Lewis Terman (1916) defendendo ideias eugenistas e "diferenças raciais" de inteligência — material hoje reconhecido como abertamente racista e usado para justificar desigualdades. (Sim: isso fez parte do alicerce de muita coisa que depois virou "ciência aplicada".)
Se isso te dá um certo mal-estar, não é bug: é feature do tema.
Testes, normas e o mito do "padrão universal"
Um ponto-chave do debate é Eurocentrismo como padrão: muitos instrumentos foram desenvolvidos e validados principalmente com populações brancas e de maior acesso, e depois aplicados como se servissem para todo mundo.
O problema não é "só" moral — é técnico. Cultura influencia desenvolvimento cerebral, cognição e desempenho em tarefas. Se a norma não representa, o risco cresce de:
- classificação incorreta
- falsa "baixa performance"
- erro de diagnóstico
- decisões clínicas injustas
A aula cita ainda como itens de testes podem ser trauma-indutores. Um exemplo discutido na literatura recente é o debate sobre a presença de um "noose" (laço de enforcamento) em um instrumento clássico (com associações históricas de linchamento e intimidação), mostrando como "seleção e manutenção" de itens também é um lugar onde racismo estrutural e avaliação psicológica se encontram.
Pergunta incômoda (e útil): o que você mantém "por padronização" mesmo quando sabe que causa dano ou distorção?
Atendimento: por que tanta gente nem chega à neuropsicologia?
A aula lembra que disparidades em saúde nos EUA (e em muitos contextos) são antigas, e que grupos historicamente explorados têm razões reais para desconfiar das instituições.
No presente, Stephanie Torres descreve barreiras bem práticas que reduzem o acesso a avaliações neuropsicológicas:
- desconhecimento do que é neuropsicologia e para que serve
- necessidade de encaminhamento (às vezes por especialista)
- custo alto (milhares de dólares quando é particular)
- tempo de consulta longo (difícil para quem precisa faltar ao trabalho)
- falta de profissionais linguisticamente e culturalmente preparados
- dependência de intérpretes (úteis, mas com limitações em exames longos)
Uma cena que resume o drama: paciente pagando do próprio bolso perguntando se a devolutiva "é opcional" ou se "vai virar outra conta". Se a pessoa está com um quadro neurodegenerativo, isso não é detalhe — é cuidado básico.
Formação e "pipeline": não basta abrir a porta (tem que ter chão do lado de dentro)
A neuropsicologia ainda é um campo com sub-representação importante de minorias, e a aula descreve barreiras comuns na formação:
- custo de formação e bolsas insuficientes ("é caro existir")
- microagressões e punição por "não assimilação"
- exaustão mental e "minority tax" (trabalho extra de diversidade sem reconhecimento)
- currículos "colonizados" (multicultural vira disciplina-checkbox)
- falta de mentoria de quem "entende" as vivências
E surge um alerta crucial: recrutar mais estudantes e docentes diversos para ambientes tóxicos pode aumentar o dano se não houver mudança estrutural e accountability real — especialmente quando pessoas com poder (e estabilidade institucional) não são cobradas.
Um ponto prático levantado no Q&A: mudar critérios de admissão, reduzir dependência de métricas excludentes (ex.: GRE), criar espaços seguros na entrevista e implementar sistemas de "buddy/mentoria" entre estudantes.
Pesquisa: melhora na "planilha", mas a amostra continua estreita
Stephanie apresenta um dado do presente: uma revisão crítica de mais de 1.600 artigos em sete periódicos de neuropsicologia, codificando variáveis como idade, sexo, escolaridade, raça/etnia, SES, língua e aculturação.
Houve melhora na reportagem de várias variáveis demográficas, mas duas feridas ficam abertas:
- aculturação quase nunca aparece (menos de 1% dos estudos, segundo o relato da aula)
- mesmo quando etnia é reportada, a mediana de participantes brancos não hispânicos é alta (75%)
Isso impacta diretamente o ciclo "pesquisa → instrumentos → clínica". Se a base é WEIRD (ocidental, educada, industrializada, rica e democrática), a generalização vira fé, não ciência.
Dica valiosa: trocar a pergunta "por que eles não participam?" por "o que estamos fazendo para matricular/enrolar (enroll) de forma ética e relevante?" A responsabilidade muda de lugar.
O futuro que dá trabalho (mas é o único que funciona)
A parte final não promete mágica — propõe estratégia.
1) Na clínica e na avaliação
- atualizar práticas com adaptações culturais e novas normas
- ser crítico com instrumentos: abandonar itens/medidas danosas quando necessário
- construir serviços com abordagem holística e centrada na pessoa
- aproximar neuropsicologia de atenção primária e comunidade (melhorar encaminhamentos)
- reconhecer e remunerar o trabalho extra de cuidado culturalmente competente
2) Na formação
- revisão holística de candidaturas (menos "número", mais contexto)
- bolsas/auxílios reais (stipends que permitam viver)
- treinamento obrigatório de mentoria e supervisão antirracista
- seminários práticos: entrevista clínica em outro idioma, nuances culturais, etc.
3) Na pesquisa e nas organizações
- reconhecer explicitamente o histórico racista da pesquisa e seus efeitos na confiança
- parcerias comunitárias, temas relevantes e equipes diversas
- editores e revisores cobrando caracterização mínima de amostra e transparência
- associações e "guilds" reduzindo barreiras financeiras (webinars e formação acessível)
A aula fecha com uma frase que funciona como aviso e convite: "sem desvio da norma, não há progresso." E aqui "desviar" significa parar de tratar tradição como evidência.
Um mini-checklist de ação (para amanhã, não para "um dia")
Se você é estudante/trainee:
- ache sua "tribo": mentores em diferentes níveis (até fora da sua instituição)
- use "curiosidade estratégica": faça perguntas que abram conversa, não guerra
- pratique linguagem: o que dizer, como dizer, quando dizer (isso muda o resultado)
Se você é colega com mais poder institucional:
- seja o "aliado barulhento" quando necessário (não terceirize o risco para quem já paga o preço)
- cobre treinamento e accountability de quem orienta
- apoie financeiramente acesso e permanência (dinheiro é uma barreira, não um detalhe)
E para todo mundo:
- escute pacientes e comunidades como fonte de conhecimento, não "variável de ruído"
- revise o que você chama de "padrão" — às vezes é só hábito com jaleco
Conclusão
A aula de Román e Torres faz algo raro: liga o passado ao presente sem "passar pano" e aponta um futuro possível sem romantizar.
Disparidades na neuropsicologia não são um acidente — são um resultado previsível de como testes, instituições e práticas foram construídos e mantidos. A boa notícia (meio trabalhosa) é que dá para mudar. A má notícia (também trabalhosa) é que não dá para mudar sem mexer na norma, nos incentivos e no poder.
Última pergunta para levar com você: qual "norma" você está pronto(a) para questionar primeiro — a do seu teste, a do seu laboratório, ou a do seu departamento?
Baseado na transcrição da aula do KnowNeuropsychology.