Quando o coração "engasga", o cérebro sente: o que a neuropsicologia revela sobre função cardiovascular e cirurgias cardíacas

Por Luan Gama Wanderley Leite • Baseado na aula de Kalliopi Megari (KnowNeuropsychology, 24 de outubro de 2022)

Introdução

Em 24 de outubro de 2022, a neuropsicóloga Kalliopi Megari apresentou uma aula no KnowNeuropsychology sobre um tema que muita gente só percebe tarde demais: coração e cérebro não são "vizinhos educados" — são colegas de quarto.

A lógica é simples (e um pouco assustadora): se o coração falha em entregar oxigênio e sangue com regularidade, o cérebro paga a conta. Às vezes com lapsos sutis. Às vezes com uma queda cognitiva que muda a vida do paciente e da família.

E aqui vai a pergunta incômoda, mas útil: quando falamos de cirurgia cardíaca, estamos medindo apenas sobrevivência… ou também o que acontece com memória, atenção e autonomia depois?

O elo coração–cérebro: por que a neuropsicologia entra na conversa

A premissa central da aula é direta: disfunção cardíaca pode levar a disfunção cerebral. Em casos como doença arterial coronariana, infarto e parada cardíaca, a alteração do fluxo sanguíneo e os efeitos inflamatórios/hipóxicos podem gerar impactos cognitivos e emocionais.

Isso muda o foco do cuidado. Não basta "dar alta" com o coração funcionando: muitos pacientes voltam para casa com o cérebro operando em outro ritmo.

Parada cardíaca: sequelas cognitivas que podem persistir

Após uma parada cardíaca (especialmente fora do hospital), a aula destaca um dado difícil de ignorar: aproximadamente metade dos sobreviventes pode manter sequelas neuropsicológicas moderadas a graves após um ano, e elas podem ser permanentes.

Perfil mais comum de dificuldades

O padrão relatado inclui:

Em termos simples: não é "só esquecimento". Pode envolver planejamento, velocidade de processamento e organização do dia a dia.

E o emocional? Vem junto.

A aula também compila taxas bem expressivas em sobreviventes:

Ou seja: o cérebro não "desliga" o trauma porque o ECG melhorou.

Cirurgia cardíaca e POCD: quando a recuperação tem um "custo cognitivo"

Um conceito-chave apresentado é a Disfunção Cognitiva Pós-Operatória (POCD), descrita como prejuízo em: atenção, reconhecimento, orientação, memória e aprendizagem após cirurgia.

Isso importa porque POCD se associa a:

A palestra reforça um ponto prático: testes neuropsicológicos são essenciais para detectar POCD sutil. Sem eles, muita coisa passa como "normal do pós-operatório".

Incidência: o número é alto

Segundo a aula, em cirurgias cardíacas a POCD pode aparecer em até 80% durante a internação (cerca de 1 semana a 10 dias). E pode permanecer em até 42% entre 3 e 5 anos depois.

Em cirurgias não cardíacas, a incidência tende a ser menor (ex.: ~25,8% no curto prazo após cirurgia geral; ~9,9% em 3 meses; ~1% em 2 anos).

CABG e tecnologia de circulação extracorpórea: MiECC vs CECC

Um dos trechos mais "mão na massa" da aula descreve um estudo com pacientes submetidos à cirurgia de revascularização (CABG), comparando duas tecnologias:

Como foi o estudo

Foram avaliados 60 pacientes (29 em MiECC; 31 em CECC) em três momentos:

Também mediram ansiedade, depressão e humor, porque — surpresa! — o cérebro não é imune ao estado emocional.

O que apareceu nos resultados

A descrição da palestra aponta um padrão:

Incidência de POCD nos grupos

A mensagem clínica é clara: a técnica e a invasividade do procedimento podem influenciar o desfecho neurocognitivo — especialmente em idosos.

LVAD e vida real: o caso do "refrigerador quebrado" dentro do peito

A aula traz um caso clínico marcante: um homem de 64 anos com insuficiência cardíaca grave recebeu um dispositivo de assistência ventricular esquerda (LVAD) e injeção de células-tronco.

Ele foi avaliado neuropsicologicamente no pré-operatório e em 1, 6 e 12 meses.

O que aconteceu com a cognição

E o detalhe humano que ninguém esquece

O paciente descreveu o som do dispositivo assim:

"O barulho é como um refrigerador quebrado…"

É engraçado por 0,2 segundos — até você lembrar que é 24 horas por dia. A recomendação incluiu estratégias de reabilitação cognitiva, psicoeducação para paciente e família e manejo emocional (relaxamento, técnicas cognitivo-comportamentais).

Fatores de risco e o "óbvio que dá trabalho": hábitos e reabilitação

Na discussão, a palestrante cita fatores que pioram o prognóstico neuropsicológico: diabetes, tabagismo, sedentarismo e baixa adesão ao cuidado. E reforça o básico que ninguém gosta de ouvir (justamente porque funciona): parar de fumar, perder peso, seguir medicação, exercitar-se.

Ela também defende uma abordagem holística na reabilitação:

Pergunta para o leitor (e para qualquer serviço de saúde): seu protocolo pós-cirúrgico mede apenas fração de ejeção… ou também mede atenção, memória e humor?

Neuropsicólogo no time integrado: "aprenda a língua da cardiologia"

Um conselho bem prático para atuar em equipe multidisciplinar: o neuropsicólogo precisa conhecer o básico de cirurgia cardíaca para falar a mesma linguagem do time e do paciente.

A aula foi marcada pela experiência da palestrante no AHEPA University General Hospital, ligado à Aristotle University of Thessaloniki, na cidade de Thessaloniki.

E aqui entra um ponto ouro: neuropsicologia não é "extra". A avaliação pré e pós-operatória pode orientar reabilitação, prever dificuldades funcionais e apoiar a família na adaptação.

Conclusão

A aula deixa uma mensagem forte: em cardiologia, sobreviver é essencial — mas não é o fim da história. Parada cardíaca e cirurgias podem trazer mudanças cognitivas e emocionais relevantes, algumas transitórias, outras persistentes. Tecnologias menos invasivas (como MiECC, no estudo apresentado) podem estar associadas a melhores trajetórias cognitivas. E casos como o do LVAD mostram que reabilitação, psicoeducação e suporte familiar não são "luxo": são parte do tratamento.

A própria palestra fecha com uma ideia inspirada em Alan Baddeley: entender a importância do sistema cognitivo é imaginar como seria viver sem ele — porque ele não é uma peça única, e sim uma aliança de sistemas que sustenta o cotidiano.

Se você trabalha com pacientes cardíacos (ou convive com alguém que passou por cirurgia), fica o convite: inclua o cérebro no plano de alta. Isso pode ser a diferença entre "estar vivo" e "voltar a viver".

Baseado na transcrição da aula do KnowNeuropsychology.