Introdução
Em 24 de outubro de 2022, a neuropsicóloga Kalliopi Megari apresentou uma aula no KnowNeuropsychology sobre um tema que muita gente só percebe tarde demais: coração e cérebro não são "vizinhos educados" — são colegas de quarto.
A lógica é simples (e um pouco assustadora): se o coração falha em entregar oxigênio e sangue com regularidade, o cérebro paga a conta. Às vezes com lapsos sutis. Às vezes com uma queda cognitiva que muda a vida do paciente e da família.
E aqui vai a pergunta incômoda, mas útil: quando falamos de cirurgia cardíaca, estamos medindo apenas sobrevivência… ou também o que acontece com memória, atenção e autonomia depois?
O elo coração–cérebro: por que a neuropsicologia entra na conversa
A premissa central da aula é direta: disfunção cardíaca pode levar a disfunção cerebral. Em casos como doença arterial coronariana, infarto e parada cardíaca, a alteração do fluxo sanguíneo e os efeitos inflamatórios/hipóxicos podem gerar impactos cognitivos e emocionais.
Isso muda o foco do cuidado. Não basta "dar alta" com o coração funcionando: muitos pacientes voltam para casa com o cérebro operando em outro ritmo.
Parada cardíaca: sequelas cognitivas que podem persistir
Após uma parada cardíaca (especialmente fora do hospital), a aula destaca um dado difícil de ignorar: aproximadamente metade dos sobreviventes pode manter sequelas neuropsicológicas moderadas a graves após um ano, e elas podem ser permanentes.
Perfil mais comum de dificuldades
O padrão relatado inclui:
- Memória e déficits motores com frequência
- Funções executivas variando em intensidade
- Também podem aparecer alterações em linguagem e habilidades visuoconstrutivas
Em termos simples: não é "só esquecimento". Pode envolver planejamento, velocidade de processamento e organização do dia a dia.
E o emocional? Vem junto.
A aula também compila taxas bem expressivas em sobreviventes:
- Depressão: 14% a 45%
- Ansiedade: 13% a 61%
- Estresse pós-traumático: 19% a 75%
- Fadiga: ~69%
Ou seja: o cérebro não "desliga" o trauma porque o ECG melhorou.
Cirurgia cardíaca e POCD: quando a recuperação tem um "custo cognitivo"
Um conceito-chave apresentado é a Disfunção Cognitiva Pós-Operatória (POCD), descrita como prejuízo em: atenção, reconhecimento, orientação, memória e aprendizagem após cirurgia.
Isso importa porque POCD se associa a:
- Maior morbidade e mortalidade
- Internação prolongada
- Mais custos em saúde
- Piora de funcionamento social e qualidade de vida
A palestra reforça um ponto prático: testes neuropsicológicos são essenciais para detectar POCD sutil. Sem eles, muita coisa passa como "normal do pós-operatório".
Incidência: o número é alto
Segundo a aula, em cirurgias cardíacas a POCD pode aparecer em até 80% durante a internação (cerca de 1 semana a 10 dias). E pode permanecer em até 42% entre 3 e 5 anos depois.
Em cirurgias não cardíacas, a incidência tende a ser menor (ex.: ~25,8% no curto prazo após cirurgia geral; ~9,9% em 3 meses; ~1% em 2 anos).
CABG e tecnologia de circulação extracorpórea: MiECC vs CECC
Um dos trechos mais "mão na massa" da aula descreve um estudo com pacientes submetidos à cirurgia de revascularização (CABG), comparando duas tecnologias:
- MiECC: sistema minimamente invasivo de circulação extracorpórea
- CECC: sistema convencional (mais antigo)
Como foi o estudo
Foram avaliados 60 pacientes (29 em MiECC; 31 em CECC) em três momentos:
- pré-cirurgia
- antes da alta (cerca de uma semana)
- seguimento em 3 meses
Também mediram ansiedade, depressão e humor, porque — surpresa! — o cérebro não é imune ao estado emocional.
O que apareceu nos resultados
A descrição da palestra aponta um padrão:
- Após a cirurgia, o grupo CECC caiu mais (memória, atenção e funções executivas).
- Em 3 meses, o grupo MiECC melhorou, chegando a superar níveis pré-operatórios em alguns casos.
- O grupo CECC ficou mais "estável" no patamar rebaixado.
Incidência de POCD nos grupos
- MiECC: 41% com disfunção antes da alta; 21% em 3 meses
- CECC: 65% antes da alta; 71% em 3 meses
A mensagem clínica é clara: a técnica e a invasividade do procedimento podem influenciar o desfecho neurocognitivo — especialmente em idosos.
LVAD e vida real: o caso do "refrigerador quebrado" dentro do peito
A aula traz um caso clínico marcante: um homem de 64 anos com insuficiência cardíaca grave recebeu um dispositivo de assistência ventricular esquerda (LVAD) e injeção de células-tronco.
Ele foi avaliado neuropsicologicamente no pré-operatório e em 1, 6 e 12 meses.
O que aconteceu com a cognição
- 1 mês: queda significativa em desempenho (algumas funções)
- 6 meses: melhora, voltando para faixa média
- 12 meses: estabilidade e retorno a níveis pré-operatórios; em fluência verbal semântica, melhora acima da média
E o detalhe humano que ninguém esquece
O paciente descreveu o som do dispositivo assim:
"O barulho é como um refrigerador quebrado…"
É engraçado por 0,2 segundos — até você lembrar que é 24 horas por dia. A recomendação incluiu estratégias de reabilitação cognitiva, psicoeducação para paciente e família e manejo emocional (relaxamento, técnicas cognitivo-comportamentais).
Fatores de risco e o "óbvio que dá trabalho": hábitos e reabilitação
Na discussão, a palestrante cita fatores que pioram o prognóstico neuropsicológico: diabetes, tabagismo, sedentarismo e baixa adesão ao cuidado. E reforça o básico que ninguém gosta de ouvir (justamente porque funciona): parar de fumar, perder peso, seguir medicação, exercitar-se.
Ela também defende uma abordagem holística na reabilitação:
- Reabilitação cardíaca + reabilitação neurocognitiva
- Aconselhamento psicológico
- Programas psicoeducacionais com a família
Pergunta para o leitor (e para qualquer serviço de saúde): seu protocolo pós-cirúrgico mede apenas fração de ejeção… ou também mede atenção, memória e humor?
Neuropsicólogo no time integrado: "aprenda a língua da cardiologia"
Um conselho bem prático para atuar em equipe multidisciplinar: o neuropsicólogo precisa conhecer o básico de cirurgia cardíaca para falar a mesma linguagem do time e do paciente.
A aula foi marcada pela experiência da palestrante no AHEPA University General Hospital, ligado à Aristotle University of Thessaloniki, na cidade de Thessaloniki.
E aqui entra um ponto ouro: neuropsicologia não é "extra". A avaliação pré e pós-operatória pode orientar reabilitação, prever dificuldades funcionais e apoiar a família na adaptação.
Conclusão
A aula deixa uma mensagem forte: em cardiologia, sobreviver é essencial — mas não é o fim da história. Parada cardíaca e cirurgias podem trazer mudanças cognitivas e emocionais relevantes, algumas transitórias, outras persistentes. Tecnologias menos invasivas (como MiECC, no estudo apresentado) podem estar associadas a melhores trajetórias cognitivas. E casos como o do LVAD mostram que reabilitação, psicoeducação e suporte familiar não são "luxo": são parte do tratamento.
A própria palestra fecha com uma ideia inspirada em Alan Baddeley: entender a importância do sistema cognitivo é imaginar como seria viver sem ele — porque ele não é uma peça única, e sim uma aliança de sistemas que sustenta o cotidiano.
Se você trabalha com pacientes cardíacos (ou convive com alguém que passou por cirurgia), fica o convite: inclua o cérebro no plano de alta. Isso pode ser a diferença entre "estar vivo" e "voltar a viver".
Baseado na transcrição da aula do KnowNeuropsychology.