Autismo em Alagoas: Diagnóstico Tardio e Falta de Estrutura no Interior Sobrecarregam Famílias

Entrevista completa e na íntegra do neuropsicólogo Dr. Luan Gama ao portal CadaMinuto — com as respostas originais, sem edições ou recortes jornalísticos.

Por — Neuropsicólogo

Nota do autor: Este texto traz as respostas originais e completas fornecidas ao jornalista Railton T. da Silva, do portal CadaMinuto, para a matéria publicada em 27/05/2026. As respostas aqui reproduzidas são as que foram efetivamente enviadas, na íntegra e sem edições, diferentemente do que foi publicado na versão final da matéria do portal.
15 mil+
crianças e adolescentes podem estar no espectro em Alagoas
2,6%
prevalência em crianças de 5 a 9 anos (IBGE 2022)
R$ 4.000+
custo de avaliação especializada na rede privada

O que é o autismo e quais são os sinais de alerta na infância?

CadaMinuto Para quem ainda está de fora ou começando a perceber os sinais em casa: afinal, o que é o autismo e quais são os principais sinais de alerta para identificar o TEA na infância?
Dr. Luan Gama

O autismo, ou Transtorno do Espectro Autista, é uma condição do neurodesenvolvimento.

Não é doença, não é algo que a criança “pega” ou que os pais causaram. É uma forma diferente de o cérebro se organizar, que aparece desde cedo e acompanha a pessoa pela vida.

A palavra “espectro” é importante: existe uma variação enorme entre uma pessoa autista e outra. Tem criança que fala muito e tem criança que não desenvolve fala funcional, tem quem precisa de pouco apoio e quem precisa de apoio intenso.

Sobre os sinais de alerta na infância, eu sempre digo aos pais para observarem três áreas:

1. Comunicação e linguagem

  • Atraso para começar a falar
  • Perda de palavras que a criança já dizia
  • Dificuldade de responder quando é chamada pelo nome
  • Pouco uso de gestos como apontar para mostrar algo

2. Interação social

  • Pouco contato visual
  • Dificuldade de brincar junto com outras crianças
  • Parecer estar “no próprio mundo”
  • Não compartilhar interesse, não apontar para dividir uma descoberta

3. Comportamentos repetitivos e interesses restritos

  • Movimentos repetidos com as mãos ou o corpo
  • Apego excessivo a rotinas
  • Incômodo intenso com mudanças
  • Fixação por um único assunto ou objeto
  • Sensibilidade sensorial fora do comum com sons, texturas, luzes

Um sinal isolado não fecha diagnóstico. O que liga o alerta é o conjunto desses sinais e, principalmente, a percepção de que o desenvolvimento da criança está seguindo um caminho diferente do esperado para a idade. Se a família sente que algo não vai bem, essa percepção merece ser levada a sério. Não é para esperar para ver. Quanto antes a investigação começa, melhor.

A realidade em números: mais de 15 mil crianças em Alagoas

CadaMinuto No seu post, o senhor menciona que mais de 15 mil crianças e adolescentes podem estar com autismo em Alagoas. O que esse número representa para a nossa realidade e qual é o maior gargalo que essas famílias enfrentam hoje após a suspeita?
Dr. Luan Gama

Esse número que eu citei não é um chute, ele vem de dados sólidos.

O Censo 2022 do IBGE identificou 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de autismo no Brasil, o equivalente a 1,2% da população. E entre as crianças de 5 a 9 anos a prevalência foi ainda mais alta, 2,6%, a maior entre todas as faixas etárias.

Quando a gente traz isso para a realidade de Alagoas e aplica essas taxas à população infantojuvenil do estado, chega-se facilmente a mais de 15 mil crianças e adolescentes que podem estar dentro do espectro.

E aqui está o ponto que eu faço questão de frisar: esse número representa, em boa parte, gente que ainda não foi diagnosticada.

Não é uma fila organizada de pessoas com laudo esperando atendimento. É uma população que muitas vezes nem chegou na porta de entrada do sistema. São crianças com sinais, com famílias que percebem, com escolas que percebem, mas que não têm o documento que transforma essa suspeita em direito.

E é exatamente aí que está o maior gargalo. Depois da suspeita, a família trava no acesso ao diagnóstico.

Uma investigação séria precisa, no mínimo, de neuropsicólogo e médico neuropediatra ou psiquiatra infantil, e a depender do caso de outros profissionais.

Na rede privada, uma avaliação especializada ultrapassa três, quatro mil reais. Para uma família de baixa renda, isso simplesmente não cabe no orçamento de quem já luta com o básico.

Na rede pública o caminho é longo, fragmentado, cheio de encaminhamentos parciais e filas extensas.

O resultado é uma perversidade social: quem tem dinheiro investiga cedo, quem não tem espera. Na infância, esperar cobra um preço que não volta — em linguagem, em aprendizagem, em autonomia.

“Estar matriculado não é estar incluído”

CadaMinuto Uma frase forte do seu post é: “Estar matriculado não é estar incluído”. Na prática, o que está falhando no sistema educacional de Alagoas em relação aos alunos laudados? O que os pais devem cobrar da coordenação?
Dr. Luan Gama

Quando eu digo que “estar matriculado não é estar incluído”, eu estou apontando uma diferença que muda tudo na vida prática dessas crianças.

Matrícula é garantir a vaga, é o nome da criança na lista. Inclusão é outra coisa: é a criança realmente aprendendo, participando, sendo acolhida e tendo o seu desenvolvimento sustentado dentro da escola.

Um absurdo extremo colocar a culpa nas escolas, nas diretoras, coordenadoras, professoras, psicopedagogos, sabendo que o acompanhamento, aprendizado e o ensino adequado depende da gestão pública.

O que falha, na prática, é o que vem depois da matrícula:

  • Falta formação consistente dos professores para lidar com alunos autistas
  • Falta o profissional de apoio quando o caso exige
  • Falta adaptação real do currículo e das atividades — não é baixar a exigência, é ajustar o caminho para a criança chegar lá
  • Falta a escola conversar com a família e com a equipe clínica

Muitas vezes o laudo chega à escola e fica numa gaveta, sem virar plano, sem virar ação concreta na sala de aula.

O que os pais devem cobrar

  • O Plano Educacional Individualizado (PEI) — documento que organiza as adaptações para aquele aluno específico
  • Se a escola tem profissional de apoio e em que condições
  • Como os professores estão sendo orientados sobre o caso
  • Reuniões periódicas de acompanhamento
  • Registrar tudo por escrito

Incluir não é favor da escola, é direito da criança garantido por lei. O laudo na escola não pode ser papel parado — ele tem que virar ação.

O vazio assistencial no interior de Alagoas

CadaMinuto O senhor destaca que muitas famílias vivem no interior e seguem esquecidas. Como é a realidade de quem busca diagnóstico e tratamento fora de Maceió? Alagoas hoje é um “deserto” de assistência especializada?
Dr. Luan Gama

Se a situação já é difícil em Maceió, no interior ela é ainda mais dura.

A assistência especializada em Alagoas é concentrada. Os profissionais, os centros, a estrutura de avaliação — tudo isso se aglomera na capital e em pouquíssimos polos.

Quem mora no interior, na prática, precisa sair do próprio município para conseguir uma avaliação. E aí o custo deixa de ser só clínico.

Eu sempre falo isso porque é a parte que as pessoas esquecem de contar. Para uma família do interior buscar diagnóstico, entra o custo do transporte, da alimentação fora de casa, do dia de trabalho perdido — às vezes de mais de um membro da família. Entra o desgaste emocional de uma peregrinação que se repete a cada etapa do processo.

Para muita gente, isso inviabiliza completamente o cuidado. Não é que a família não queira — é que o caminho foi desenhado de um jeito que ela não consegue percorrer.

Eu evito a palavra “deserto” porque existe esforço de muitos profissionais e serviços que fazem o que podem com o que têm. Precisamos respeitar, reconhecer e valorizar verdadeiros heróis comprometidos fazendo um trabalho sério — contudo, sozinhos.

Mas é honesto dizer que existe um vazio assistencial real, e que esse vazio é desigual no território. Quanto mais longe da capital, mais a família fica entregue à própria sorte.

Há famílias no interior que seguem esquecidas não porque o problema é invisível, mas porque o sistema não chega até elas. E o diagnóstico, que deveria ser uma porta, vira um obstáculo de logística e de dinheiro.

Tratamento ideal vs. Tratamento real: o tempo que não volta

CadaMinuto O senhor aponta que fazer até 2 horas de terapia por semana não é o cuidado ideal. Qual seria o cenário terapêutico ideal para o desenvolvimento dessas crianças e qual o impacto real desse “tempo perdido” por conta da burocracia?
Dr. Luan Gama

Esse ponto é o que mais me preocupa.

Quando eu digo que fazer uma ou duas horas de terapia por semana não é o cuidado ideal, eu não estou desvalorizando o esforço de ninguém — estou sendo honesto sobre o que a ciência mostra.

O cenário ideal para uma criança autista é um cuidado que seja, primeiro, baseado em evidências; segundo, com intensidade adequada à necessidade dela; e terceiro, integrado.

Integrado quer dizer as diferentes frentes conversando entre si — a depender do caso, fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia, acompanhamento pedagógico — e a família dentro do processo, porque o desenvolvimento não acontece só na sala de terapia, acontece em casa, na rotina, no dia a dia.

Uma criança que recebe pouquíssimas horas de estímulo, de forma fragmentada e sem ninguém coordenando o conjunto, está recebendo bem menos do que precisaria para desenvolver o seu potencial.

O tempo perdido

A infância tem janelas de desenvolvimento. O cérebro infantil tem uma plasticidade enorme, uma capacidade de aprender e se reorganizar que é maior justamente nos primeiros anos.

Cada mês que a criança passa esperando o diagnóstico, esperando a vaga, esperando a burocracia andar, é um mês dentro dessa janela que não volta. Não é tempo neutro. É tempo de desenvolvimento que se perde em linguagem, em aprendizagem, em autonomia, em adaptação social.

Diagnóstico não é luxo, não é detalhe burocrático, não é etapa opcional. A avaliação séria e multiprofissional é a porta de entrada para a intervenção certa. E intervenção precisa de intensidade e de tempo a favor da criança. Cada atraso que a gente normaliza tem um custo real — e quem paga esse custo é a criança e a família.

O Brasil já reconhece os direitos da pessoa com autismo. A lei existe. O gargalo está no acesso — e fechar esse gargalo é uma urgência, não uma opção.

Mensagem para famílias e gestores públicos

CadaMinuto O senhor poderia deixar uma mensagem final para mães, pais e principalmente gestores públicos?
Dr. Luan Gama

Minha visão em relação ao autismo não é diferente de outras condições.

Nos casos de esquizofrenia, pacientes e famílias seguem cronicamente abandonados, sem suporte, sem rede, sem continuidade.

Na dependência química, área na qual tenho longa experiência, o que temos é um modelo majoritariamente fracassado, centrado na punição e na abstinência como único critério de sucesso, enquanto o sofrimento real das famílias continua sem resposta.

E no autismo, o que vemos é uma criança que tem direito garantido em lei, mas que na prática encontra fila, distância, custo e burocracia onde deveria encontrar cuidado.

O fio que liga tudo isso é o mesmo: um sistema que ainda trata saúde mental como serviço de segunda categoria e não tem a mínima noção dos impactos econômicos e sociais daqui a 10 anos.

Às vezes é necessário desenhar:

Hoje, Alagoas possui mais de 15 mil crianças autistas.

Daqui a 10 anos, se essas crianças não forem assistidas, vamos ter muito mais de 15 mil adultos autistas sem o suporte que precisavam na infância.

O Brasil já reconhece os direitos da pessoa com autismo. A lei existe. O gargalo está no acesso. E fechar esse gargalo não é uma opção, é uma urgência.

Porque enquanto a gente normaliza o atraso, quem paga a conta é sempre a mesma pessoa: a criança que perdeu uma janela de desenvolvimento que não volta, a família que peregrina sozinha, o adulto que chegou tarde demais num sistema que nunca foi desenhado para ele.

É por isso que eu sigo nesse trabalho. Não porque é fácil. Porque é necessário.

Precisa de avaliação neuropsicológica?

Se você percebe sinais de desenvolvimento atípico no seu filho ou filha, o primeiro passo é buscar uma investigação profissional séria.

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